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PT tem o pior resultado em eleições municipais dos últimos 20 anos

 


SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O saldo eleitoral para o PT inclui o menor número de prefeituras conquistadas em 20 anos, a derrota sem precedentes na maior cidade do país e o surgimento de uma sombra sobre sua liderança no campo da esquerda.

Mesmo assim, o partido buscou nessa segunda-feira (16) enxergar aspectos positivos em seu desempenho nas urnas e até cantar vitória em algumas situações.

Nos bastidores, dirigentes do partido dizem que é preciso renovar seus líderes e reconectar-se com o eleitorado, sobretudo os mais jovens, para evitar perder ainda mais terreno no campo progressista.

“A grande derrotada desta eleição é a extrema direita, lembrando que os partidos do chamado centrão receberam fartos recursos do governo federal, especialmente em emendas, em troca de apoio no Congresso”, disse a presidente do partido, Gleisi Hoffmann, antes de reunião de balanço do diretório nacional.

Com a presença de Lula, o diretório decidiu não entrar em uma grande e potencialmente desgastante análise dos erros cometidos, com o argumento de que a eleição ainda não terminou.

O PT está esperançoso quanto ao segundo turno, em que está em 15 disputas, legenda com maior número de participações nesta etapa. Entre elas, duas capitais, Vitória (ES) e Recife (PE). O partido também tem o candidato a vice em Belém (PA) e Porto Alegre (RS).

Na reunião do diretório, o partido acenou com apoio a candidatos de esquerda no segundo turno, inclusive os do PDT, em cidades como Fortaleza (CE) e Aracaju (SE).

Isso mostra um clima melhor entre as duas legendas de esquerda desde uma conversa entre Lula e Ciro Gomes há alguns meses.

Apoios a candidatos de outros partidos, como Eduardo Paes (DEM) no Rio de Janeiro, serão decididos pela Executiva Nacional em reunião nesta terça (17).

O PT também diz que teve cerca de 7 milhões de votos no primeiro turno, patamar levemente superior ao registrado em 2016.

E afirma que, no grupo de cidades com segundo turno, aumentou sua votação em mais de 20%.

O problema com a matemática petista é que a base de comparação é com o pior momento vivido pelo partido em seus 40 anos de história.

Há quatro anos, a Lava Jato vivia seu auge, e a presidente Dilma Rousseff havia acabado de sofrer impeachment.

Havia a expectativa entre dirigentes petistas que, passado esse momento mais agudo e em meio à crise do bolsonarismo, o partido tivesse desempenho muito melhor.

Mas o número de prefeituras caiu, para 178 eleitas no primeiro turno, patamar mais baixo desde 2000. Mesmo se vencer mais 15 no segundo turno, não chegará às duas centenas.

São números muito distantes do auge da força política do partido. Em 2004, por exemplo, o PT fez nove prefeitos de capitais. O recorde de prefeituras ocorreu em 2012, com 644 conquistadas.

Nada que supere, no entanto, o vexame na capital paulista, onde o partido ficou em sexto lugar. Desde 1988, o candidato do PT sempre esteve entre os dois mais votados.

Mais melancólico para o partido, houve o crescimento político da figura carismática de Guilherme Boulos (PSOL), que passou para o segundo turno, com uma campanha forte em redes sociais e grande penetração na juventude.

Dirigentes partidários afirmam que o PT precisa responder de alguma forma a esse movimento.

“É hora de o PT fazer uma reflexão sobre seu futuro, investir mais na disputa de ideias, na formação e valorização da militância”, diz o deputado federal Rui Falcão (SP), ex-presidente nacional do partido.

Para o ex-governador gaúcho e ex-ministro Tarso Genro, a base do partido em São Paulo aplicou um “corretivo” na direção municipal, que lançou candidatura própria em vez de apoiar Boulos no primeiro turno.

“Em São Paulo, a base do PT fez uma aliança com outra força de esquerda independentemente das movimentações políticas da direção. Isso é uma coisa saudável. Metade do eleitorado do Boulos é base do PT”, afirmou ele, também ex-presidente do partido.

Apesar disso, o PT mostrou alguma resiliência na cidade, elegendo oito vereadores, bancada mais numerosa na Câmara, ao lado da tucana.

Para Genro, a ascensão do psolista é positiva para o campo progressista. “A emergência do Boulos como figura central da esquerda é uma coisa muito promissora e renovadora. O PSOL passa a ter maior relevância. A curto e médio prazos, mostra para o PT a necessidade de renovar suas lideranças, ter uma nova geração”, diz.

Ele cita alguns movimentos promissores nesse sentido, com o crescimento de Marilia Arraes, que foi para o segundo turno em Recife, e a renovação da bancada de vereadores em Porto Alegre.